Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim de Mil Histórias

Jardim de Mil Histórias

02
Jan18

Conversas de Mil Histórias | Marlene Ferraz

Isa Pereira


Hoje trago-vos uma entrevista a Marlene Ferraz, autora do romance As Falsas Memórias de Manoel Luz, da editora Minotauro

                                   

Curiosos para conhecer um pouco mais desta autora? Então fiquem por aí.

Jardim de Mil Histórias: Como surgiu o seu gosto pela escrita?

Marlene Ferraz: «Depois do espanto pela leitura.Seria uma criança muito metida em contemplações, incomodada com o sofrimento evitávelnos homens e nos bichos: ficava exageradamente comovida quando me confrontavacom um pássaro ferido por um chumbo, uma borboleta com as asas gastas pelacuriosidade das crianças ou um cão tão magro que poderia contar-se os ossos. Etoda a violência entre homens e homens. Os livros, companheiros de horasintermináveis, resgatavam-me para outras realidades, também duras, improváveis,mas carregadas de ilusão e esperança. Como um escafandro. Ou um outrocompartimento de oxigénio. Conviver com o sofrimento pede uma carga suficientede ilusão.»

J. M. H.: A Marlene é formada em Psicologia. Como issoinfluencia a sua escrita?
M. F.: «O ofício da Psicologia obriga aoexercício de nos descentrarmos o mais possível da criatura que somos para nosfocarmos no outro: há um desprendimento dos nossos posicionamentos (leia-seenviesamento) e uma aceitação incondicional da pessoa que temos diante. Avulnerabilidade acaba por ser a matéria de apreciação e produção: receber, coma maior transparência, as fragilidades do outro e ensaiar novas formas de ver arealidade que incomoda, como se tivéssemos em mãos um caleidoscópio. É provávelque esta proximidade com o sofrimento e a renovação, neste processo infinito deredenção, esteja nas entrelinhas das (minhas) narrativas.»

J. M. H.: Já recebeu diversos prémios literários. Como reagiua este reconhecimento?
M. F.: «Os prémios literários acabam porampliar a coragem que precisamos para publicar: num mercado livreiro tãointimidante, em que um número infinito de livros chegam continuamente àslivrarias, com listas dos mais vendidos e etiquetas de prémios internacionais, maistodos os livros espantosos doutros tempos, só com uma dose mínima de loucura (ecoragem) para nos entregarmos a um desafio tão privado mas também comercial. Éuma realidade paradoxal. Lembro-me de ser mais menina e ouvir um editor demaior grandeza dizer, numa conversa paralela, na espantosa livraria CentésimaPágina: neste momento, só publicamos deMia Couto para cima. E eu, de coração (ou ingenuidade) esmagado, comecei amedir-me aos palmos. Nunca poderia chegar ao tamanho do (meu) encantador MiaCouto.»

J. M. H.: O seu mais recente livro, As Falsas Memórias deManoel Luz, é uma biografia que nos fala de flores e livros.  Em que se inspirou para escrever estahistória?
M. F.: «No primeiro, A Vida Inútil de JoséHomem, andei pelas memórias da guerra colonial, como se precisasse de recriar ocenário do Estado Novo na minha cabeça: para quem veio ao mundo dos vivos já emtempos (aparentemente) democráticos, uma guerra em território ultramar pareceapenas matéria cinematográfica. Neste segundo, As Falsas Memórias de ManoelLuz, acabei por alinhavar uma narrativa no seguimento temporal: atravessamos aRevolução de Abril, entre as metáforas dos livros e das flores, já que olivreiro se levanta entre dois homens de inspirações muito opostas, o senhorPrudente, de grandezas e luxos, muito interessado no lucro e no poder, e osenhor Luz, de simplezas e afectos, dedicado ao ofício de floreiro e cuidadordas flores e dos outros, a simbolizar esta bipolaridade que vivemos dentro efora do corpo, o bem e o mal, o capitalismo e a sustentabilidade social, o amore o medo (e continuaríamos por linhas completas).»


J. M. H.:  O que mais gosta neste processo de escrita?
M. F.: «O exercício de compor as palavras, numaordem particular, com musicalidade e simbolismo. E a criação de homens,mulheres e bichos, com as suas estranhezas e imperfeições, num grito deliberdade pela transparência, sem a intenção (artificial) de parecermosperfeitos por fora apesar dos buracos de vulnerabilidade por dentro.»

J. M. H.: Quais as suas grandes referências enquantoescritora?
M. F.: «Agrada-me mais a palavra encontro: e tenhotido encontros tão espantosos (e os que virão, ainda). José Saramago. HerbertoHelder. Gabriel García Márquez. Jorge Luís Borges. Julio Cortázar. TrumanCapote. Iréne Némirovsky. Franz Kafka. Tchékhov. Dostoiévski. E uma mão denomes mais recentes. Mia Couto. Gonçalo M. Tavares. Herta Muller. Han Kang (nosmeus braços, agora). Teria de espreitar a minha estante para continuar estabiografia de encontros.»

J. M. H.: Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que oprocesso de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
M. F.: «Tempo é a palavra principal (paramim). Tempo para contemplar, para dialogar, para sentir, para perguntar, paraviajar (por dentro). E para escrever, depois. Nunca penso em esforço ou talentomas na entrega temporal a um exercício que nos obriga a entrar numa cápsuladepois dum intervalo de contemplações.»

J. M. H.: De todos os livros que já escreveu qual delesmelhor define a sua escrita?
M. F.: «Mesmo o verbo escrever é dinâmicoe, aparentemente, a minha escrita tem vindo a transformar-se sem que a minhacabeça (ou mãos) tenha consciência deste processo de mudança. Provavelmente,com o tempo (e todos os instantes de dúvida e experimentação e leitura), é aminha pessoa que tem vindo a metamorfosear-se, assim as borboletas, e essa renovaçãona forma de dentro acaba, inevitavelmente, por se diluir na forma da escrita.»

J. M. H.:  Enquanto leitora o que gosta mais de ler? E oque não gosta de ler?
M. F.: «Leio tudo. Se estiver numa fila deespera, posso até ler a tabela nutricional do produto que tenho em mãos ou areceita de uma salada improvável na revista emprestada. Ler é entrar num mundonovo, é despertar ideias, levantar os pés do chão... é escapar ao tédio. Hátantos lugares inóspitos no dia a dia. A espera num consultório. A espera numarepartição de finanças. A espera para renovar o cartão de cidadão. Os livrossão territórios incríveis à nossa espera. Basta abrir uma página, pode ser aoacaso, e o milagre acontece.»

J. M. H.: Qual o livro da sua vida?
M. F.: «A lista poderia sercomprida, conforme o tempo e o lugar. Tantos os livros que me têm espantado,confortado, desafiado, até incomodado. Mas, a revisar a minha narrativa devida, diria que o primeiro (grande) livro a criar em mim esse espanto pelopoder da escrita terá sido O Memorial do Convento, de José Saramago, leituraobrigatória (e como agradeço) no ensino secundário e ainda hoje invento nacabeça a passarola do padre Bartolomeu e o poder da Blimunda que pode ver pordentro.»

J. M. H.: Que projectos literários tem para o futuro?
M. F.: «Quando acabo um livro, a sentir-medesocupada de matéria, aviso sempre que pode ter sido o último. Analiso o meutempo futuro e planeio usar mais horas noutros projectos, como o voluntariado ea protecção animal. Mas depois começam os primeiros cenários a virem à cabeça.Tento abafar as ideias que despontam mas o processo de instalação das novascompanhias (leia-se personagens) está já num estado irreversível. Tenho umahistória a fazer-se dentro de mim. Veremos o que o tempo traz.»


Marlene, muito obrigada por esta entrevista.


Nota: Opinião do livro As Falsas Memórias de Manoel Luz, de Marlene Ferraz em breve.
Boas leituras.  

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Isaura's bookshelf: currently-reading

A Mulher Secreta
tagged: currently-reading

goodreads.com

Sigam-me

Links

  •  
  • Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Rubricas

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    google1ed4a992f74de1ef.html