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Jardim de Mil Histórias

Jardim de Mil Histórias

29
Jun17

Conversas de Mil Histórias | Nuno Nepomuceno

Isa Pereira


Após uma longa pausa hoje retomamos um segmento aqui no blogue: As Conversas de Mil Histórias. Um espaço de conversas sobre livros com diversos convidados. 

O convidado de hoje é o Nuno Nepomuceno, autor dos livros A Célula Adormecida e da Trilogia Freelancer, composta por O Espião Português, A Espia do Oriente (opinião em breve) e A Hora Solene (opinião em breve).

Espero que gostem e que leiam os livros do autor Nuno Nepumoceno, pois valem muito a pena. 



Jardim de Mil Histórias - O Nuno é formado em Matemática. Como surgiu estapaixão pela escrita e por contar histórias?

Nuno Nepomuceno - Iniciou-se com a leitura. Por influência daminha mãe, que sempre me incentivou a isso, acabei por crescer acompanhado porlivros. Os meus gostos foram evoluindo com a idade, claro. Recordo-me de lercoleções como Os Cinco, Os Hardy ou Uma Aventura, que me eram oferecidas pelo Natal ou que iarequisitar à biblioteca municipal. Gostava bastante de o fazer, de andar pelarua com os livros na mão enquanto ia e vinha.
Depois, quando passei a ser financeiramenteindependente, é que comecei a investir mais noutros géneros, como os thrillers. Houve um momento a partir doqual, que não sou capaz de precisar com exatidão, em que comecei a sentircuriosidade sobre como seria estar do outro lado, ou seja, ter o poder de criare manipular as personagens, entrando, assim, no imaginário do leitor. Hoje emdia é isso que me motiva mais — a possibilidade de suscitar emoções em que lê omeu trabalho.

Nuno Nepomuceno


J.M.H. - A trilogia “Freelancer” teve um grande impactonos leitores. Foi com a primeira parte, “O Espião Português”, que ganhou, em 2012,o Prémio Literário Note!. Estava à espera desse reconhecimento?

N. N. - Eu já publiquei quatro livros e quer o processo, comoos resultados que obtive, foram diferentes em todos eles. É difícil dizer se euesperava ganhar um prémio revelação ou se aquele livro que eu tinha escritodurante oito anos se tornaria num sucesso comercial. Quando concorri, quisacreditar que sim, e quando O EspiãoPortuguês foi colocado à venda, desejei-lhe o melhor. Mas nunca se sabemuito bem o que vai acontecer. O mercado livreiro não é tão previsível quantopossamos pensar e, por vezes, há surpresas, sejam elas boas ou más. Eulimito-me a ser otimista.



J. M. H. -  O seu mais recente livro “A Célula Adormecida” desperta-nospara uma hipótese de ataque terrorista em Lisboa. Hoje em dia é uma hipótesebem real. O que pretendeu com esta história?


N. N. - Tive dois objetivos, essencialmente. Oprimeiro foi provocar uma mudança na minha carreira. A trilogia Freelancer acabou por deixar uma marcaalgo inesperada, sobretudo, devido ao carisma do protagonista, e eu quisdistanciar-me de tal, ou seja, mostrar ao meu público que sou um escritor commais do que uma dimensão e, através disso, cativar outros leitores. Daí A Célula Adormecida ser um romance bemmais negro do que os anteriores que publiquei, assumindo-se claramente com um thriller psicológico e não tanto como umpolicial.
Por outro lado, desejava abordar um tema quejulgo ser importante e que, infelizmente, começa a fazer parte da nossa vidadiária. Os grupos terroristas têm muitas nuances, estando, por vezes,associados as outros fenómenos de forma mais ou menos direta. Foi assim tambémque surgiu a ideia de abordar temas fraturantes da nossa sociedade, que com olivro desejei colocar sob reflexão. Refiro-me aos movimentos migratórios, àinstabilidade no Médio Oriente, ao extremismo e radicalização da Europa, entreoutros. A mensagem final que tentei transmitir foi a de tolerância. Espero quetenha chegado aos leitores.


J. M. H. - Nota-se nos seus livros um grande rigor factual,histórico e social. Faz algum trabalho de investigação prévia?

N. N. - Sim, é algo que comecei a trabalhar logo com O Espião Português, mas que tem ganhopreponderância em todo o meu processo criativo com o passar dos anos. Procuroler sobre os temas que quero abordar, visitar os locais que escolho para a açãodos livros, entrevistar especialistas ou até mesmo viver parte daquilo que desejodescrever. Por exemplo, assisti a alguns serviços religiosos na MesquitaCentral de Lisboa durante o ano em que dediquei à redação de A Célula Adormecida. E isso acabou porser muito importante para mim, pois, enquanto estava lá sentado a observar em silêncioas pessoas que rezavam, as ideias iam surgindo naturalmente.


J. M. H. - Quaisas suas grandes referências enquanto escritor?

N. N. - Em termos técnicos, não tenho ninguém. A escrita nãoé estanque e há certas formas de o fazer que aprecio e outras que nem por isso.Procuro escrever aquilo com me sinto confortável, incluindo as opções criativosque tomo, não embarcando em modas ou fórmulas que se dizem ser extremamentevendáveis na atualidade. Fora isso, há autores cuja carreira vejo como umexemplo e cujos livros me dão bastante prazer. Posso citar os casos de KenFollet e Daniel Silva, se bem que existam outros. Já li excelentes obras forado registo policial.


J. M. H. - Em que é se inspira para escrever?
N. N. - É um processo misto. Tanto pode vir de umafotografia, como aconteceu com A Espia doOriente, ou através de uma canção, como foi o caso de A Hora Solene. Ou até um livro, no caso do conto « A Cidade», com oqual integrei a coletânea Desassossego daLiberdade. Mas tento manter um espírito aberto e ser recetivo a novoselementos. Por vezes, as melhores ideias surgem de forma inesperada. Derepente, estou a escrever e é como se os dedos tivessem vida própria. Há umafrase que surge sem ser planeada e que muda tudo.


J. M. H. - Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que oprocesso de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
N. N. - Eu gosto de pensar que tenho algum talento. Se assimnão fosse, não iria escrever, pois foi a vontade de mostrar aos outros o queconsidero ser capaz de fazer que me levou a começar, independentemente do muitoou pouco sucesso que viesse a ter. Mas tudo requer imenso trabalho e quandocomeçamos um livro é bom que estejamos cientes de que não vai ser fácil. Se amemória não me falha, nunca escrevi um capítulo à primeira. Chego a revê-losquatro e cinco vezes e até a reescrevê-los constantemente ou mesmo deitá-losfora.


J. M. H. - Sente de alguma forma que a literaturaportuguesa não é tão valorizada face à literatura internacional?
N. N. - Existe algum desfavorecimento, sim, mas que pensoter-se atenuado nos últimos tempos. Há autores portugueses que vendem mais emalturas muito críticas, como o Natal, do que os escritores estrangeiros. Esperoque seja uma situação que tenda a continuar a evoluir de forma positiva nofuturo. Pelo menos, o passado recente dá-nos alguma esperança nesse sentido. Háalguns anos, a ficção portuguesa debatia-se para competir com a norte-americanaou brasileira e hoje em dia lidera audiências. O mesmo tem vindo a acontecercom a nossa música. Nós temos uma relação algo curiosa com o que fazemos.Julgamos sempre que é de qualidade inferior. O que nos chega de fora exerce umgrande fascínio sobre o consumidor. Resta a esperança que, à semelhança datransformação que tem vindo a ocorrer noutros setores da cultura, o mesmo sevenha a suceder com a literatura nacional.


J. M. H. - Enquanto leitor o que gosta mais de ler? E o quenão gosta de ler?
N. N. - Aprecio essencialmente thrillers e policiais, com algumas incursões felizes pela fantasiae romances históricos, mas ciente de que um bom livro deve ser lido e,portanto, com abertura para as surpresas que poderão surgir. E não tenho nenhumgénero, formato ou autor que me cause aversão. Ler faz parte da nossa vida.Precisamos de o fazer diariamente.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
N. N. - Os Pilares daTerra, de Ken Follett, e Os TrêsMosqueteiros, de Alexandre Dumas. Adoro as épocas históricas em quedecorrem e admiro os autores pelo excelente trabalho que realizaram com oslivros. O Estranho Caso do Cão Morto,de Mark Haddon, também é uma obra que me marcou muito, sobretudo, pela formacriativa e sensível com que explorou o tema do autismo.


J. M. H. - Para quem não conhece a sua obra, e no sentidode convencer o nossos leitores a ler os seus livros, qual deles define melhor asua escrita?
N. N. - Esta é uma pergunta muito difícil. Todos eles sãoespeciais para mim à sua maneira. Os primeiros porque não foi fácilpublicá-los, além de terem exigido um esforço considerável para os escrever, jáque não possuía qualquer experiência; os últimos porquetraduzem melhor a pessoa que sou hoje em dia. Prefiro que sejam os meusleitores a decidir isso.


J. M. H. - Que projetos literários tem para o futuro?
N. N. - Neste momento, encontro-me a trabalhar emmais um thriller psicológico, que,apesar de ter alguns pontos de contacto com ACélula Adormecida, não será sobre terrorismo, embora envolva de novo umagrande dimensão cultural e religiosa, além de outros elementos que sãotransversais ao meu trabalho, como aventura, romance, espionagem e alguma ação.
Estou numa fase importante do livro, mas algoembrionária, ainda, razão pela qual não sei quando será publicado. Prefirolevar o meu tempo e regressar quando me sentir preparado, quando tiver acerteza de que este é o meu melhor livro até ao momento.


J. M. H. - Nuno, muito obrigada por esta entrevista.
N. N. - Eu é agradeço a oportunidade e convido todos os leitores acontinuarem a passear pelas mil histórias do seu jardim.

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