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Jardim de Mil Histórias

Jardim de Mil Histórias

16
Jan18

Opinião | "As Falsas Memórias de Manoel Luz", de Marlene Ferraz

Isa Pereira




Este é um livro sobre flores e livros. A capa não engana. Capa essa que está muito bem conseguida. Uma edição bonita, cuidada. Nós, amantes de livros e da leitura gostamos de livros bonitos. E isso é algo que esta editora já nos vai habituando. 

Marlene Ferraz tem um estilo de escrita muito peculiar. Ao longo da narrativa acompanhamos a vida de Manoel Luz, filho de um floreiro, depressa vê a sua vida rodeado de livros. Um livro que prometia tanto pela sua edição, como pela história.

Não somos feitos para todos os livros e nem todos os livros são feitos para nós. Algo na história não me cativou quanto gostaria. Estou certa que será um livro que agradará a muitos. Com uma escrita quase poética.  

No entanto, não deixem de ler este livro. Uma história de livros e flores não se pode, nem deve, recusar.

Boas leituras.


Nota:
Este livro foi-me disponibilizado pela Editora Minotauro em troca de uma opinião honesta.
Para mais informações sobre o livro clique aqui.  



02
Jan18

Conversas de Mil Histórias | Marlene Ferraz

Isa Pereira


Hoje trago-vos uma entrevista a Marlene Ferraz, autora do romance As Falsas Memórias de Manoel Luz, da editora Minotauro

                                   

Curiosos para conhecer um pouco mais desta autora? Então fiquem por aí.

Jardim de Mil Histórias: Como surgiu o seu gosto pela escrita?

Marlene Ferraz: «Depois do espanto pela leitura.Seria uma criança muito metida em contemplações, incomodada com o sofrimento evitávelnos homens e nos bichos: ficava exageradamente comovida quando me confrontavacom um pássaro ferido por um chumbo, uma borboleta com as asas gastas pelacuriosidade das crianças ou um cão tão magro que poderia contar-se os ossos. Etoda a violência entre homens e homens. Os livros, companheiros de horasintermináveis, resgatavam-me para outras realidades, também duras, improváveis,mas carregadas de ilusão e esperança. Como um escafandro. Ou um outrocompartimento de oxigénio. Conviver com o sofrimento pede uma carga suficientede ilusão.»

J. M. H.: A Marlene é formada em Psicologia. Como issoinfluencia a sua escrita?
M. F.: «O ofício da Psicologia obriga aoexercício de nos descentrarmos o mais possível da criatura que somos para nosfocarmos no outro: há um desprendimento dos nossos posicionamentos (leia-seenviesamento) e uma aceitação incondicional da pessoa que temos diante. Avulnerabilidade acaba por ser a matéria de apreciação e produção: receber, coma maior transparência, as fragilidades do outro e ensaiar novas formas de ver arealidade que incomoda, como se tivéssemos em mãos um caleidoscópio. É provávelque esta proximidade com o sofrimento e a renovação, neste processo infinito deredenção, esteja nas entrelinhas das (minhas) narrativas.»

J. M. H.: Já recebeu diversos prémios literários. Como reagiua este reconhecimento?
M. F.: «Os prémios literários acabam porampliar a coragem que precisamos para publicar: num mercado livreiro tãointimidante, em que um número infinito de livros chegam continuamente àslivrarias, com listas dos mais vendidos e etiquetas de prémios internacionais, maistodos os livros espantosos doutros tempos, só com uma dose mínima de loucura (ecoragem) para nos entregarmos a um desafio tão privado mas também comercial. Éuma realidade paradoxal. Lembro-me de ser mais menina e ouvir um editor demaior grandeza dizer, numa conversa paralela, na espantosa livraria CentésimaPágina: neste momento, só publicamos deMia Couto para cima. E eu, de coração (ou ingenuidade) esmagado, comecei amedir-me aos palmos. Nunca poderia chegar ao tamanho do (meu) encantador MiaCouto.»

J. M. H.: O seu mais recente livro, As Falsas Memórias deManoel Luz, é uma biografia que nos fala de flores e livros.  Em que se inspirou para escrever estahistória?
M. F.: «No primeiro, A Vida Inútil de JoséHomem, andei pelas memórias da guerra colonial, como se precisasse de recriar ocenário do Estado Novo na minha cabeça: para quem veio ao mundo dos vivos já emtempos (aparentemente) democráticos, uma guerra em território ultramar pareceapenas matéria cinematográfica. Neste segundo, As Falsas Memórias de ManoelLuz, acabei por alinhavar uma narrativa no seguimento temporal: atravessamos aRevolução de Abril, entre as metáforas dos livros e das flores, já que olivreiro se levanta entre dois homens de inspirações muito opostas, o senhorPrudente, de grandezas e luxos, muito interessado no lucro e no poder, e osenhor Luz, de simplezas e afectos, dedicado ao ofício de floreiro e cuidadordas flores e dos outros, a simbolizar esta bipolaridade que vivemos dentro efora do corpo, o bem e o mal, o capitalismo e a sustentabilidade social, o amore o medo (e continuaríamos por linhas completas).»


J. M. H.:  O que mais gosta neste processo de escrita?
M. F.: «O exercício de compor as palavras, numaordem particular, com musicalidade e simbolismo. E a criação de homens,mulheres e bichos, com as suas estranhezas e imperfeições, num grito deliberdade pela transparência, sem a intenção (artificial) de parecermosperfeitos por fora apesar dos buracos de vulnerabilidade por dentro.»

J. M. H.: Quais as suas grandes referências enquantoescritora?
M. F.: «Agrada-me mais a palavra encontro: e tenhotido encontros tão espantosos (e os que virão, ainda). José Saramago. HerbertoHelder. Gabriel García Márquez. Jorge Luís Borges. Julio Cortázar. TrumanCapote. Iréne Némirovsky. Franz Kafka. Tchékhov. Dostoiévski. E uma mão denomes mais recentes. Mia Couto. Gonçalo M. Tavares. Herta Muller. Han Kang (nosmeus braços, agora). Teria de espreitar a minha estante para continuar estabiografia de encontros.»

J. M. H.: Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que oprocesso de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
M. F.: «Tempo é a palavra principal (paramim). Tempo para contemplar, para dialogar, para sentir, para perguntar, paraviajar (por dentro). E para escrever, depois. Nunca penso em esforço ou talentomas na entrega temporal a um exercício que nos obriga a entrar numa cápsuladepois dum intervalo de contemplações.»

J. M. H.: De todos os livros que já escreveu qual delesmelhor define a sua escrita?
M. F.: «Mesmo o verbo escrever é dinâmicoe, aparentemente, a minha escrita tem vindo a transformar-se sem que a minhacabeça (ou mãos) tenha consciência deste processo de mudança. Provavelmente,com o tempo (e todos os instantes de dúvida e experimentação e leitura), é aminha pessoa que tem vindo a metamorfosear-se, assim as borboletas, e essa renovaçãona forma de dentro acaba, inevitavelmente, por se diluir na forma da escrita.»

J. M. H.:  Enquanto leitora o que gosta mais de ler? E oque não gosta de ler?
M. F.: «Leio tudo. Se estiver numa fila deespera, posso até ler a tabela nutricional do produto que tenho em mãos ou areceita de uma salada improvável na revista emprestada. Ler é entrar num mundonovo, é despertar ideias, levantar os pés do chão... é escapar ao tédio. Hátantos lugares inóspitos no dia a dia. A espera num consultório. A espera numarepartição de finanças. A espera para renovar o cartão de cidadão. Os livrossão territórios incríveis à nossa espera. Basta abrir uma página, pode ser aoacaso, e o milagre acontece.»

J. M. H.: Qual o livro da sua vida?
M. F.: «A lista poderia sercomprida, conforme o tempo e o lugar. Tantos os livros que me têm espantado,confortado, desafiado, até incomodado. Mas, a revisar a minha narrativa devida, diria que o primeiro (grande) livro a criar em mim esse espanto pelopoder da escrita terá sido O Memorial do Convento, de José Saramago, leituraobrigatória (e como agradeço) no ensino secundário e ainda hoje invento nacabeça a passarola do padre Bartolomeu e o poder da Blimunda que pode ver pordentro.»

J. M. H.: Que projectos literários tem para o futuro?
M. F.: «Quando acabo um livro, a sentir-medesocupada de matéria, aviso sempre que pode ter sido o último. Analiso o meutempo futuro e planeio usar mais horas noutros projectos, como o voluntariado ea protecção animal. Mas depois começam os primeiros cenários a virem à cabeça.Tento abafar as ideias que despontam mas o processo de instalação das novascompanhias (leia-se personagens) está já num estado irreversível. Tenho umahistória a fazer-se dentro de mim. Veremos o que o tempo traz.»


Marlene, muito obrigada por esta entrevista.


Nota: Opinião do livro As Falsas Memórias de Manoel Luz, de Marlene Ferraz em breve.
Boas leituras.  

10
Abr17

Opinião | "Rapariga em Guerra", de Sara Nović

Isa Pereira

Título: Rapariga em Guerra
Autor(a): Sara Nović
Editora: Editora Minoauro
N.º de Páginas: 236 páginas
Edição: 2017
Temática/Género: Literatura/Romance

Classificação: 4 estrelas


Sinopse:
Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade.


Zagreb, 1991. Ana Jurić é uma menina de dez anos com um espírito descontraído, que vive com a sua família na capital da Croácia. Mas, nesse ano, a Jugoslávia é abalada pela guerra civil, destruindo a infância idílica de Ana. A paz do dia a dia é manchada pelo racionamento, pelos constantes raids aéreos e os jogos de futebol são substituídos pelo fogo das armas. Os vizinhos começam a desconfiar uns dos outros e a sensação de segurança começa a desvanecer-se. Quando a guerra lhe bate à porta, Ana tem de encontrar um novo caminho num mundo perigoso.

Nova Iorque, 2001. Ana é agora uma estudante universitária em Manhattan. Apesar de todas as tentativas para deixar o passado para trás, não consegue escapar às recordações de guerra e aos segredos que guarda até dos que lhe são mais próximos. Perseguida pelos acontecimentos que lhe roubaram a família para sempre, regressa à Croácia depois de uma década de ausência, na esperança de fazer as pazes com o lugar a que um dia chamou casa. Enquanto enfrenta o passado, procura reconciliar-se com a história difícil do seu país e com os acontecimentos que lhe interromperam a infância, há tantos anos.


Avançando e recuando no tempo, este livro é um retrato franco e generoso de um país devastado pela guerra, mostrando-nos, com uma escrita brilhante, a impossibilidade de separar a história de um país e a história do indivíduo.

Sara Nović revela destemidamente o impacto da guerra numa menina e o seu legado em todos nós. É a estreia de uma escritora que olhou para o passado recente e encontrou uma história que ressoa ainda hoje. 



Opinião:
Este livro conquistou-me pela capa, apelativa e intrigante. Muito bem conseguida. E, embora não leia os livros apenas pelo seu exterior, decidi que o queria ler. A história cativava-me. Fiquei curiosa.

Um livro sobre a Guerra nos Balcãs era algo de novo para mim. Os livros históricos de alguma forma têm um algo de especial. E, escusado será dizer, que estou cada vez mais conquistada por este género.

Um livro onde vamos recuando e avançando no tempo. Conhecemos Ana, a protagonista principal, com apenas 10 anos e vamos acompanhando a sua vida até chegar à fase adulta. Mais do que transformações físicas, neste livro, vemos as transformações emocionais que esta personagem sofre. Este livro retrata uma parte da História que não é habitual lermos em livros de ficção.  

Gostei da forma como a autora nos envolve na história, no enredo, mas também de conhecer um pouco mais sobre este acontecimento histórico. Esta história pretende abordar o impacto que a guerra tem nos cidadãos comuns, especialmente em crianças e no seu crescimento pessoal e social.

Este é o livro de estreia da autora. Sara Nović é sem dúvida uma autora que vou querer acompanhar no futuro.

Recomendo!


Nota:
Este livro foi-me disponibilizado pela Editora Minotauro em troca de uma opinião honesta.

Para mais informações sobre o livro ver aqui.





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